sábado, 16 de janeiro de 2016

XII.

Décimo sexto dia do ano.
Ou o assombro cotidiano.

Logo contarei sobre a minha viagem de férias, motivo pelo qual sumi aqui do blog.
Bem, não é novidade que a vida tem me causado assombro diariamente. Parece que nestes últimos cinco anos eu estive num outro mundo e agora retornei em um lugar que não sei bem qual é.
Hoje uma criança de uns sete anos que mora aqui perto sofreu um acidente de bicicleta. Uma bola bateu no pneu dianteiro da bicicleta e a criança acabou por desequilibrar-se. O resultado: cara esfolada, braço sangrando e uma unha do dedo do pé arrancada. 
Vieram nos chamar, quando cheguei lá a criança estava chorando muito e várias pessoas estavam em volta dela falando mil coisas, "não chore vai assustar sua mãe", "quem mandou andar de bicicleta?", "se ficasse em casa na acontecia" e enfim, milhões de lições de moral começaram a envolver a criança.
Por um instante tive a sensação de que a criança machucada havia virado fundo e o que se mostrava ali eram uma porção de adultos fazendo reclamações e recomendações. Minutos depois haviam chegado mais umas dez pessoas que também desataram a falar. Haviam também uma porção de crianças assustadas com o ocorrido.
Ninguém acalmou a criança, ninguém verificou os machucados. Ninguém chamou a mãe logo após o acidente. Eu não conseguia me aproximar da criança porque as "autoridades" estavam mantendo tudo sobre controle. 
A criança continuou assustada e chorando copiosamente, reclamando da dor. Seu rosto estava visivelmente machucado e sangrando. Quando a mãe chegou, começou a gritar com a criança. Culpabilizou-a pelo acidente, disse que deveria cair todas as vezes que subisse na bicicleta e enfim. No final, a criança continuou sangrando, chorando e com dor. E foi pra casa como se nada tivesse acontecido. 
Eu imagino que cenas como estas sejam mais comuns do que eu estou pensando e que este meu assombro seja resultado do pouco convívio com crianças. No entanto, como ficam as crianças nessas situações? Quem é que olha pra elas como sujeitos que precisam de cuidados? E os cuidados vão para muito além dos cuidados físicos, como limpar os machucados e fazer curativos. Os cuidados passam por saber onde a criança está brincando, ter equipamento de segurança, saber se tem algum adulto supervisionando as brincadeiras de vez em quando. Aonde estavam aquela penca de adultos enquanto as crianças estavam brincando? Porque só aparecerem para dar sua opinião sobre a "desgraça" que aconteceu. 
E o pior é quando você tem apenas vinte e um anos e as pessoas sequer te consideram como uma pessoa que pode auxiliar. Quem sabe das coisas são os "adultos, mais velhos". Eu não duvido do seu saber e da sua experiência, no entanto, há coisas que precisam receber novos olhares. 

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