Ou Cinquenta Tons de Ana
Hoje eu me olhei no espelho e pensei "Como você está graciosa, Ana". Pela primeira vez em semanas e talvez meses, eu olhei no espelho e vi uma pele relaxante e olhos brilhando. Só pra constar eu continuo na Terra do Sul.
Por algum motivo indefinido eu realmente assisti Cinquenta Tons de Cinza e eu não pude me contentar com aquele filme raso e sem graça. Perdi o ar diversas vezes enquanto assistia, confesso. Mas não foi de longe o que eu esperava. Eu não podia me conformar com tanto alvoroço em cima de uma coisa tão vazia e então eu fui ler o livro. Sim, eu fui ler o livro e ele me devolveu alguma coisa que havia perdido.
Se a Anastasia do filme é uma decepção total, a do livro não é. E isso foi um alívio pra mim, eu não podia acreditar que Ana fosse tão vazia e sem graça. No livro Ana é bastante desafiadora e eu gosto disso. E bem, o que dizer sobre Christian Grey? O do filme não me agrada, mas o do livro ... bem, eu adoraria que Christian fosse meu amigo ou meu sócio. Eu jamais seria sua submissa e acredito que quem faria qualquer tipo de contrato, seria eu. A personalidade de Christian me agrada muito. Frio, intenso, objetivo, dominador, inteligente, humor ácido e sarcástico, tem diversas habilidades (toca piano, entende de vinhos, de arte, tem um ótimo gosto musical, aprecia pratos clássicos, sabe pilotar diversos equipamentos, e tantas outras qualidades que eu não consigo listar, entre outras coisas). Bem, trazendo-o para a vida real, bastava que gostasse de vinho (e tivesse dinheiro para comprá-lo, é claro), que tivesse um gosto musical eclético, que fosse inteligente ( e eu não estou falando de uma pessoa teórica, dispenso), não precisa ter um paladar requintado nem conhecer grandes clássicos, mas tem que ser flexível o suficiente para prová-los. Eu faço questão do humor ácido e sarcástico e se vierem acompanhados de um par de olhos profundos, eu agradeço. E que goste de jogos. Penso que isto baste.
Quem me vê jogada num sofá com cara de "a vida é um tédio", não faz ideia de quão intensa eu posso ser. A questão principal é encontrar alguém que suporte toda essa intensidade. Tive algumas amostrar rápidas e penso que isso explica as minhas fixações. "Eu coloquei um feitiço em você, porque você é meu". No sentido mais literal da frase. Hoje enquanto me olhava no espelho pensava nisso, eu preciso conhecer pessoas interessantes. E acredito que o meu conceito de interessante, não tenha nada a ver com o seu. Deixe-me explicar:
Certa vez conheci um colombiano em um site de conversação com estrangeiros. Trocamos Skype e iniciamos nossa aula de conversação, eu ensinava algumas expressões em português e ele corrigia meu espanhol. Ele não havia dito mais do que três palavras e eu estava inebriada. Sua foto era borrada e não ligamos a câmera. Eu apenas podia ouvir sua voz e imaginar a criatura que estava do outro lado da tela. - Eu sou apaixonada por sotaques e por vozes - e dentro da minha cabeça (através dos fones) soava uma voz abafada, um pouco rouca com um leve sotaque italiano! DAMN! O problema maior era o fuso horário, são três horas de diferença, o que me obrigou a ficar acordada durante muitas madrugadas para "tener nuestras clases de conversasión" e o problema maior foi quando eu descobri que ele era inteligente e sabia falar através de códigos. Minha cabeça entrou em colapso e foi uma semana maravilhosa. Nunca mais nos encontramos, mas a pergunta ficou: "Porque encontrar conexões mentais é tão difícil?". E ainda por cima, quando encontro a pessoa está há uma distância absurda de mim.
Eu preciso confessar que estou cansada da Psicologia, de estar cercada por pessoas que fazem Psicologia, que discutem Psicologia o tempo todo, que ficam analisando o contexto e teorizando sobre porque o cachorro atravessou a rua. Estranhamente, ao dizer isso, eu sinto falta das aulas de canto, teclado e violino. Sinto falta de toda aquela disciplina. Meu professor não tolerava atrasos e repetia constantemente sobre a importância de seremos "artistas" disciplinados. Eu serei eternamente agradecida pela sua devoção à mim. Pelas baquetadas nos meus dedos, pela dedicação aos nossos ensaios e apresentações. E acredito que todo o controle de Grey sobre as coisas e seu modo de organizar (pra não dizer, dominar) as coisas ao seu redor. Eu senti falta de quando a minha vida era rigidamente organizada e não havia tanto tempo para sentimentalismos. Meu passatempo favorito era organizar os pensamentos para facilitar as conexões, meus textos eram claros e objetivos, bem como as ideias. A execução de algumas atividades eram cirúrgicas - pelo menos ao meu ver - e isso me dava um prazer imenso. Eu era tanta coisa antes da minha cabeça ser devastada. Eu era tão intensa e profunda nas coisas que eu fazia. Eu leio textos manuscritos e penso, fui eu que escrevi isso? Infelizmente muitos textos ficaram inacabados e eu não me atreveria a continuá-los.
Finalmente, os cinquenta tons de Grey, me fazem pensar porquê eu deixei os meus tantos tons para trás e me tornei apenas uma cor monótona e sem vida. Eu ainda não li "Cinquenta Tons de Liberdade", mas depois de cinco malditos anos, eu me sinto livre novamente para recuperar tudo o que eu perdi. Eu quero meus cinquenta tons de volta e apesar das recaídas, vocês não perdem por esperar.
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