domingo, 7 de fevereiro de 2016

XXII.

Trigésimo oitavo dia do ano.
Ou as coisas voadoras.

Novamente estou na terra do Sul e as coisas começaram a esquentar por aqui. Cheguei há aproximadamente dois dias e já perdi as contas de quantas vezes eu já disse "Maldição; Maldição do demônio; Maldição do diabo dos infernos"; e suas demais variações.  
No dia que cheguei eu estava tomada pela paz da minha casa, o que não durou muito por aqui. Quando fui dormir estava calma, mas dois segundos depois que eu havia deitado a minha cabeça foi invadida por pensamentos que eu não conseguia saber de onde vieram e trouxeram junto sentimentos que não eram meus. Eu estava ok. Parei pra pensar um instante enquanto toda aquela "nhaca" me perturbava e pensei: isso só pode ser energia acumulada. Alguém está pensando muita coisa louca nesse lugar. E enfim, no outro dia acordei como se tivesse trabalhado a noite inteira, eu estava acabada. Acho que fui puxar lenha no inferno enquanto dormia. 
Imagine só o meu estado, os sinais de possessão demoníaca começaram a aparecer. A tarde fui ao mercado, que programa maravilhoso, não? Eu amo ir ao mercado, passar nas prateleiras, olhar os produtos, que amor. Acabei comprando um demaquilante  e uns discos de algodão pra ajudar a tirar a maquiagem. E também comprei doce de leite e ameixa, porque estava com desejo. 
Pois bem, depois que voltei do mercado, separei cinco tigelas, enchi com sal grosso, adicionei alguns cravos, alho e alecrim (o ideal era pimenta, mas não tinha). Coloquei um incenso de flor de laranjeira em cada tigela - que é o aroma mais aceito pelos Anciãos - afinal eu não podia correr o risco deles jogarem meus incensos fora. Iniciei fazendo uma oração pra mim, me protegendo. E depois acendi incenso por incenso e passei por todos os cômodos da casa rezando e imaginando que a fumaça do incenso estava limpando as nhacas do lugar. Depois abri todas as janelas e depositei uma tigela em cada espaço e deixei queimar. Nem preciso dizer que depois de algumas horas o lugar era outro.
Todo mundo dormiu maravilhosamente bem à noite. Eu deitei e desmaiei, acordei só hoje de manhã. Almocei e fui dormir de novo. E aí acordei com vontade de comer meu bolo recheado de ameixa com doce de leite. E foi aí que o clima começou a esquentar.
Eu deixo bem claro aqui que eu odeio pão-de- ló, na verdade eu odeio fazer, mas se alguém fizer eu como. Mas queria uma massa básica pra destacar o recheio. Encontrei uma bendita receita e lá fui eu. 
Iniciei fazendo o "Mise en place" que significa "posta no lugar". Ou seja, peguei a forma que eu iria usar, cortei o papel manteiga, separei as claras da gema, medi o açúcar, a farinha, peguei a batedeira e pré-aqueci o forno. Tudo isso pode parecer besteira, mas faz toda a diferença na hora de executar uma receita. Com todos os ingredientes à mão você não vai ficar louca no meio da receita por descobrir que não tem farinha suficiente ou que acabou o fermento. 
Pois bem, feito o "Mise en place" iniciei as claras em neve. Perfeitas, lindas. A receita pedia que eu adicionasse as gemas nas claras e batesse, eu não gosto disso, mas resolvi seguir a receita. Em seguida, pedia para adicionar a farinha à mão e lá fui eu. A massa estava estranha, eu não tinha colocado metade da farinha e massa estava com aspecto de dura, mas ok. Aprendi num curso que o pão-de-ló não necessita de fermento, devido à ação das claras em neve então não liguei para a falta do mesmo na receita. Coloquei a massa na forma, dei uma ajeitada e coloquei assar. Quando volto para ver a receita, ia fermento na maldita. Fiquei louca, tirei a forma rapidamente do forno e fiz uma tentativa de colocar o fermento, mas fiquei tão louca que atirei a forma longe e aí começou o espetáculo. Eu não sei como o fogão ainda resiste, ele sempre é vítima das minhas fúrias. E em instantes tudo ficou lindo, era pano de prato voando, forma girando no ar, farinha no chão. Eu sei muito bem o que significa a expressão "cega de ódio". 
Mas ok, resolvi que iria fazer o maldito bolo. Procurei uma nova maldita receita e lá fui eu. As claras em neve ficaram uma porcaria, agradeci o fato dos garfos da batedeira não serem afiados, porque senão eu teria perdido uns três dedos. Respirei fundo. E segui a nova receita e sim, dessa vez eu coloquei fermento. Foi só colocar a forma no forno e eu desapareci da cozinha. 
Quero a minha casa.
Sem mais.


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