terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

XXV.

Quadragésimo sétimo dia do ano
Ou o entediante cotidiano

Hello ... it's me.
Aqui estou eu novamente, na bad. As balas de goma que eu comi me ressuscitaram mas não fizeram com que a bad fosse embora. E parece que ela não vai tão cedo. ~ Hello terapia, estou chegando ~
Há uma explicação hormonal para essas bads, li vários estudos realizados com pessoas que possuem Síndrome dos Ovários Policísticos e vi que é um "efeito colateral". Como eu sou uma bad eterna, nunca saberei.  O que eu sei é que nos últimos dias viver tem sido algo insuportável. E eu me recuso à voltar para a minha querida e amada (só que não) Seritralina. A realidade dói diariamente e eu tô naquela fase que em que eu não sei porque tô viva. E falando nisso, o dia que eu encontrar o responsável pela minha vinda à vida, eu vou dar um tiro nessa pessoa. Eu quero ver onde eu assinei dizendo que eu queria vir pra Terra viver uma vida miserável. Eu preferia ficar centenas de anos no meio das trevas até não saber mais o que era eu e o que era trevas. Sem pessoas, de preferência. 
Hoje fiz um favor à uma criatura necessitada e coloquei meus lindos pezinhos na Universidade Capitar. Eu havia jurado nunca mais pisar lá depois de formada, mas infelizmente e bem infelizmente, eu tive que pisar lá mais uma vez. Não sei se fiquei mais de meia hora lá, mas foi o suficiente pra reviver o horror de cinco anos. A minha aversão ao lugar é tão grande que eu comecei a me sentir mal. Aquele lugar é sinônimo de lutas intensas e vazias. De sujeira e podridão. Um dia eu já amei as lutas estudantis e me senti intensamente orgulhosa de fazer parte delas, hoje passo longe. O mesmo digo das lutas feministas. E de tantas outras lutas que eu aprendi a ter aversão. Foi lá que eu aprendi que as pessoas não são "boas" e que a maioria das lutas, no final das contas, é só uma luta de egos. Eu perdi muitos amigos nessas lutas, que se deixaram cegar pelo poder. Um poder que é ilusório, ao meu ver.
 Pra mim, títulos não dizem nada. Eu sou psicóloga e daí? Eu sou tão humana quanto a vendedora que me atende na loja, à moça que entrega panfletos na rua, à doméstica que só pôde estudar até a quarta série. Eu preciso de um emprego, de casa, comida, roupas tanto quanto elas. As hierarquias existem e são inegáveis. Mas, penso, que podemos estabelecer relações de poder com respeito. Em cinco anos eu cansei de ouvir que tudo o que dava errado era culpa do bolsista/estagiário (ou seja, eu).  E cansei de admitir que a culpa era realmente minha quando a questão fugia totalmente da minha alçada. E me indignei muitas vezes, quando pessoas que estavam no mesmo patamar que eu, se portavam com superioridade em relação à mim. Como se EU devesse alguma coisa à ela. E pior, tive que agir como se devesse, pois meus superiores não davam à mínima.
E foi num processo lento e exaustivo que as coisas foram perdendo  o sentido pouco à pouco. Primeiro às lutas estudantis, depois as lutas feministas, depois as lutas da profissão. Não faz sentido algum lutar por uma causa em que o resultado é apenas a foto de um fulano qualquer num jornal, num pôster ou numa cadeira. De que me adianta ser chamada de "Diva feminista, maravilhosa, extremista, ou sei lá o que" e ver que no meu próprio convívio o machismo continua sendo reproduzido e legitimado. E que isso acontece principalmente no meio das feministas, o que me assusta ainda mais. Eu jamais aceitarei que uma mulher seja oprimida na minha frente, mas essa luta não é pra mim. Nem a estudantil e nem nenhuma outra. 
Enquanto isso eu fico em casa lavando a louça pela milésima vez, ouvindo que tem uma "crosta" no chão, que a casa está suja e afins. E fico pensando onde é que eu assinei o contrato de empregada doméstica. Sem mais.

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