Ou Tempo para Matar
Aqui estou eu novamente. Aparentemente de TPM e bem, você pode imaginar o que isso significa: PROBLEMAS.
Estou visivelmente sensível ao meu ambiente e isso têm gerado conflitos, uma sequência irritante de pequenos conflitos e claro, objetos voadores. Nos últimos dois dias tenho me mantido em silêncio, não devo ter dito mais do que dez, doze palavras, mas acredite: você não gostaria de ouvi-las.
A insuportável ladainha matutina, as discussões por causa da igreja no almoço, as reclamações sobre o tempo à tarde e as pragas e as lamúrias por causa da insônia à noite. Esta têm sido minha linda e adorada rotina. Eu pude ignorá-la eficientemente por alguns dias, me afundando em filmes e livros. Em menos de uma semana eu já estou na última parte do terceiro livro da trilogia "Cinquenta Tons", isso tudo junto soma mais de mil páginas.
Ontem organizei-me para um ensaio fotográfico levemente sombrio e sedutor, para afastar os meus demônios. Mas é claro, o contrário aconteceu. Após ser interrompida uma quantidade significativa de vezes, eu só não joguei minha câmera pela janela, porque eu realmente à amo e necessito dela para viver. Senão ela teria voado.
Ao final da tarde recebi a maravilhosa notícia de que eu ficaria sozinha em casa. Deus existe, pensei instantaneamente. Mas não foi por muito tempo. Os Anciãos temem que o demônio venha me pegar, se eu estiver sozinha em casa. Então em menos de meia hora eles estavam novamente em casa, me deixando completamente irritada. Quando eles chegaram eu estava "performando" na sala, sob o meu tapete. Há muito tempo eu não me ouvia cantar tão afinadamente, foi uma excelente performance e no auge, é claro, como de costume, eu fui interrompida. Não preciso sequer falar da insônia, que me atormenta diariamente. O sono sempre vem ao amanhecer, mas aqui não é permitido dormir por muito tempo, então novamente eu sou retirada do meu mundo dos sonhos e acordo endiabrada.
Tenho tentado fugir do contato com qualquer pessoa que seja, pessoalmente ou virtualmente, eu tento me esconder no meu quarto mas logo alguém atrás de mim para saber o que aconteceu. Se eu estou em silêncio perturbam-me, se estou gritando, magoam-se. Eu só queria que me deixassem um minuto em paz.
Hoje, no entanto, o meu estresse estava me dominando e eu tentei relaxar olhando pela janela por diversas vezes. Meia taça de vinho me ajudou a relaxar e então ao virar as costas tive "uma visão". Num curto espaço de tempo eu olhei para mim e vi que tudo o que está acontecendo nos últimos dias é exatamente igual ao que acontecia na minha "infância". A mesma vida de merda, as mesmas chantagens emocionais de merda, as mesmas exigências de merda, os mesmos sentimentos de merda. Lendo centenas de livros para tentar esquecer de toda essa merda em cima de mim. A questão é que depois de muitos anos de terapia eu estou sem a minha armadura ... "Você é muito resistente, Ana". Resistente, o caralho. A ideia aqui é sobreviver, apenas. Mais de dez anos se passaram e toda essa merda continua aqui e estou sem a minha armadura. Eu respirei fundo e tentei ser otimista dizendo pra mim mesma que eu já sobrevivi à toda essa porcaria e que eu preciso tentar mais uma vez. Sobreviver, mais uma vez. E recuperar a minha armadura, que me servia muito bem e me faz falta. Quem precisa de sentimentos nessa merda? Se você precisa, pegue-os para você. E não me venha novamente com essa merda de conversa de "você é resistente". Pegue essa merda de vida pra você e divirta-se com suas não-resistências. O mundo precisa disso. Me deixe sozinha. Eu estou farta!