sábado, 14 de janeiro de 2017

XXXVII.

Décimo quarto dia do ano.
Ou os dementadores.

Muitas coisas aconteceram desde a última postagem, no entanto as vezes prefiro manter-me na escuridão e deixar que as coisas se acalmem.
Eis que ontem estive novamente na Capital e à cada quilômetro em que o ônibus se afastava do Condado do Sul, eu sentia cada célula do meu corpo voltando à vida. Como um milagre, pouco à pouco, quilômetro à quilômetro eu voltei a sentir toda a vida que reside no meu corpo e que eu acreditei estar morta. Os meus queridos pensamentos retornaram à minha cabeça e eu pude me deleitar com as minhas ideias mais loucas e queridas. Eu estava viva novamente, inacreditavelmente viva.
A cidade, as pessoas, o céu, os desconhecidos, os velhos passos cruzando com os novos passos. Vida. Eu estava sozinha, infinitamente sozinha, me sentindo viva e livre novamente. Pela primeira vez em tempos me senti contente por ser uma desconhecida em meio à multidão. E em meio à tantos passos eu percebo novamente que eu nasci para ser uma pessoa que vive e não para ser uma boneca de porcelana que enfeita a estante.
À cada passo havia tanto para olhar, para sentir, para cheirar e para ouvir. Reencontrar velhos amigos e novamente ser vista como pessoa, como uma pessoa que vive, que está aqui e agora. No entanto, o telefone toca e a voz do outro lado tenta me tirar dos meus minutos de vida.
 - Hoje não- penso eu.
Hoje não. Hoje é meu dia de viva de novo. Hoje o dia é meu. Meu presente.
O mesmo telefone que tenta me levar ao passado, me leva para o presente, o meu presente. Eu não o amo, no entanto sou grata por tudo o que compartilhamos. Em meio à tanto caos, ser olhada como uma pessoa me traz de volta à vida. Nós não nos amamos e isso permite que o meu coração descanse. E com um movimento habilidoso abre o meu cérebro e rompe com todas as conexões cerebrais me fazendo sentir livre. Um prelúdio de morte que me faz sentir ainda mais viva. Aqui e agora, com o meu presente. 
Eu posso sentir o meu corpo em êxtase, cada célula que respira como se fosse a primeira vez. E mesmo estando submissa aos seus movimentos, eu me sinto incrivelmente poderosa. Dona do meu próprio corpo, do meu próprio prazer e da minha própria vida. O seu não-amor me liberta de todas as prisões que o amor construiu para me condenar. E quando eu fecho os olhos, morte e vida se encontram e eu estou livre. Quando eu abrir os olhos não importa se estarei deitada em uma cama ou em um caixão, pois eu pude sentir em plenitude outra vez. 
Livre, viva, poderosa, dona de tudo o que é meu e que não é nada. Despossuída. Tocar sem prender. Amar sem condenar. Sem sofrer. Minutos de silêncio que curam. Os seus olhos no meu, eu estou viva novamente. Sou pessoa. Estou sentindo, estou ouvindo, vivendo, em paz. A paz dos mortos e dos vivos. 
Num instante, as montanhas do Condado do Sul se aproximam e você se torna mais uma lembrança guardada dentro do meu corpo, que morre. Os olhos se apagam, as células se acalmam e os gritos retornam. Uma noite de sono restauradora, despertar com os velhos gritos. Os dementadores continuam aqui para recomeçar sua rotina diária de sugar todo e qualquer vestígio de vida que há em mim. A dança da vida e a morte mais uma vez. Até quando?

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