quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

XXXVIII

Vigésimo dia do ano.
Ou reflexões pós-aniversário.

Uma "bruxa do Oeste" como chamaram-me, que recentemente completou seus 230 anos de vida. Benção e maldição. A constância. Assim como a vida e a morte. A dança eterna. Sentir-se velha e cansada demais para viver mais um ano e ao mesmo tempo sentir-se tão jovem quanto um botão que floresce pela primeira vez. Sobreviver à tantas mortes e encontrar tantas vidas em si. Poderia o amor salvar-nos? Poderia o amor ser a resposta para tudo?
O chamado.
Voltar as raízes para morrer. Mais uma vez. Deixar o passado para trás como uma sombra. O tempo de livrar-se de velhos pesos para seguir adiante. A velha senhora levou-me até o inferno para mostrar-me que existe beleza nas profundezas da escuridão. Existe e sempre existirá. Aprender a contemplar a beleza do inferno para reconhecer as verdadeiras belezas do céu. A verdadeira beleza, aquela que nada tem a ver com estética.
Olhar-se no espelho da vida, embaixo da máscara e da túnica. Reconhecer velhas cicatrizes e finalmente curá-las. Renovar as dores. Deixar que os velhos amores morram. Entregá-los ao cuidado dos Deuses da Memória. Entregar os caminhos aos Deuses. E caminhar pelas profundezas interiores afim de escavar pedras preciosas. Lapidar-se a si mesmo através da mão dos Deuses.
Diz a canção "Não é fácil ser escolhida, não é fácil ser chamada" e eu acrescento, não é fácil ver-se morrer quando se está demasiadamente apaixonada pelas paixões mundanas. Entretanto as mortes são cotidianas e à medida em que você se aproxima mais de quem você é verdadeiramente, o medo desaparece. Abre-se um canal que já não pertence nem à vida e nem à morte. O canal que separa o humano do divino. O crescimento. Aquele que só é possível através da morte. Morte em vida. A morte do primeiro amor que deve descansar no esquecimento. Da melhor amiga. Da roupa antiga que não serve mais. Lançar-se nua em um mar congelado, mesmo quando não se sabe nadar.
Metáforas, uma sequência delas para ilustrar os caminhos interiores. Duzentos e trinta anos ainda não são suficientes para que eu fale sobre eles. Cada um com suas próprias luzes e escuridões, com seus medos e prisões, com seus amores. Cada um tentando fazer o seu melhor e o seu pior. O renascimento que só vem depois que você virar pó - foi a minha senhora quem me disse e eu acredito.

sábado, 14 de janeiro de 2017

XXXVII.

Décimo quarto dia do ano.
Ou os dementadores.

Muitas coisas aconteceram desde a última postagem, no entanto as vezes prefiro manter-me na escuridão e deixar que as coisas se acalmem.
Eis que ontem estive novamente na Capital e à cada quilômetro em que o ônibus se afastava do Condado do Sul, eu sentia cada célula do meu corpo voltando à vida. Como um milagre, pouco à pouco, quilômetro à quilômetro eu voltei a sentir toda a vida que reside no meu corpo e que eu acreditei estar morta. Os meus queridos pensamentos retornaram à minha cabeça e eu pude me deleitar com as minhas ideias mais loucas e queridas. Eu estava viva novamente, inacreditavelmente viva.
A cidade, as pessoas, o céu, os desconhecidos, os velhos passos cruzando com os novos passos. Vida. Eu estava sozinha, infinitamente sozinha, me sentindo viva e livre novamente. Pela primeira vez em tempos me senti contente por ser uma desconhecida em meio à multidão. E em meio à tantos passos eu percebo novamente que eu nasci para ser uma pessoa que vive e não para ser uma boneca de porcelana que enfeita a estante.
À cada passo havia tanto para olhar, para sentir, para cheirar e para ouvir. Reencontrar velhos amigos e novamente ser vista como pessoa, como uma pessoa que vive, que está aqui e agora. No entanto, o telefone toca e a voz do outro lado tenta me tirar dos meus minutos de vida.
 - Hoje não- penso eu.
Hoje não. Hoje é meu dia de viva de novo. Hoje o dia é meu. Meu presente.
O mesmo telefone que tenta me levar ao passado, me leva para o presente, o meu presente. Eu não o amo, no entanto sou grata por tudo o que compartilhamos. Em meio à tanto caos, ser olhada como uma pessoa me traz de volta à vida. Nós não nos amamos e isso permite que o meu coração descanse. E com um movimento habilidoso abre o meu cérebro e rompe com todas as conexões cerebrais me fazendo sentir livre. Um prelúdio de morte que me faz sentir ainda mais viva. Aqui e agora, com o meu presente. 
Eu posso sentir o meu corpo em êxtase, cada célula que respira como se fosse a primeira vez. E mesmo estando submissa aos seus movimentos, eu me sinto incrivelmente poderosa. Dona do meu próprio corpo, do meu próprio prazer e da minha própria vida. O seu não-amor me liberta de todas as prisões que o amor construiu para me condenar. E quando eu fecho os olhos, morte e vida se encontram e eu estou livre. Quando eu abrir os olhos não importa se estarei deitada em uma cama ou em um caixão, pois eu pude sentir em plenitude outra vez. 
Livre, viva, poderosa, dona de tudo o que é meu e que não é nada. Despossuída. Tocar sem prender. Amar sem condenar. Sem sofrer. Minutos de silêncio que curam. Os seus olhos no meu, eu estou viva novamente. Sou pessoa. Estou sentindo, estou ouvindo, vivendo, em paz. A paz dos mortos e dos vivos. 
Num instante, as montanhas do Condado do Sul se aproximam e você se torna mais uma lembrança guardada dentro do meu corpo, que morre. Os olhos se apagam, as células se acalmam e os gritos retornam. Uma noite de sono restauradora, despertar com os velhos gritos. Os dementadores continuam aqui para recomeçar sua rotina diária de sugar todo e qualquer vestígio de vida que há em mim. A dança da vida e a morte mais uma vez. Até quando?

sábado, 7 de janeiro de 2017

XXXVI.

Sétimo dia do ano.


Em cada palavra há uma recusa, um silêncio e na casa apenas ecoam gritos. Eu acredito em maldições e em crianças amaldiçoadas. E quando vejo minhas árvores amigas e confidentes serem derrubadas, vejo nelas o meu futuro.
Os dias se passam e já fazem dezesseis dias desde a minha partida. Tenho evitado espelhos desde então e tento ao máximo ignorar que minha seiva está secando. Gritos, tudo o que existe aqui são gritos. Um condado preenchido por gritos, guerras e mortes. Não há espaço para cuidar dos feridos, há apenas espaço para lutar e morrer com glória.
Eu temo a vida muito mais do que temo a morte. Eu temo as pessoas muito mais do que temo a solidão. Eu temo as palavras muito mais do que temo o silêncio. Silêncio. Não conheço mais tuas melodias suaves, ó amado silêncio. Apenas gritos que ecoam noite e dia.
Há dias em que desperto com uma pedra sobre meu peito que lentamente esmaga meu coração e não me deixa respirar em paz. Arrependimento. Não restam sequer espaços para os sarcasmos, apenas gritos. Irei gritar até que não me reste voz e então silenciarei.
Quantos males são causados por pessoas que só querem o seu bem? Quantas prisões são construídas para a sua própria proteção? Quantos gritos são necessários para negar a sua verdade? Quantos sentimentos são necessários para sacrificar o seu amor? Quantos medos serão necessários para o seu fim?
Em cada palavra há uma recusa e um grito que pede socorro. Em cada necessidade de silêncio, há uma fuga e uma tentativa de salvação. As lágrimas que ninguém vê, a dor que ninguém sente, o clamor aos Deuses que se fazem presentes. Salve-me senhora para que os meus pés sejam livres. Salve-me senhora para que meu coração seja livre. Salve-me enquanto ainda posso dançar. Salve-me enquanto ainda restam-me palavras para louvar-te. Salva-me enquanto ainda há tempo para correr. E quando não houver mais tempo e nem pés, acolhe-me novamente em teu ventre sagrado e permita-me descansar.
Em cada grito há uma oração que pede piedosamente que tudo silencie.