sábado, 31 de dezembro de 2016

XXXV.


Trecentésimo sexagesimo quinto dia do ano.
Ou o último dia do ano.

Fielmente acreditei que não mais escreveria neste blog em 2016 e pelo que vemos, foi um engano. Até hoje meus mares internos estavam calmos e reflexivos e eu já havia aceitado o meu destino. No entanto, vinte minutos após a chegada dos Castores, desesperei-me. Por um instante senti a dor de não ter mais uma casa nas montanhas da Capital para me esconder. Não há mais casa na Capital, nem vida, apenas lembranças e muitos amores.
Minha face no espelho está transformando-se e evito olhá-la para não sentir os meus pedaços desintegrando. Quem serei eu, a partir de hoje? Quem poderei ser eu, afinal? Não posso sequer falar livremente do demônio, coisa que me regojiza e acalma a alma. Quem é o demônio de vocês? Porque há tanto medo dele? Certamente não falamos do mesmo demônio. O meu não possui conotação religiosa alguma e não há porque temê-lo. Não posso sequer falar do inferno, o que tem no inferno de tão apavorante que já não foi vivido aqui na Terra? Poderia existir algum lugar mais infernal do que este?
É extremamente desafiador viver em meio às pessoas novamente. As pessoas gritam o tempo todo, discutem por coisas tão supérfluas como alguém que passa na rua de carro, e quando percebo estou gritando também. Gritei mais em dez dias do que em seis anos.
E então comecei a cultivar uma horta. E voltei a escrever meu livro. E assistir uma temporada de série por dia.
As estátuas podem estar esquecidas sob um balcão, camufladas entre vidros com cobras e fermentos. As sementes foram lançadas na terra juntamente com minha devoção. Se não posso acender velas, me tornarei uma. Seja para iluminar este lugar ou colocar fogo em tudo.
As aventuras castorianas retornaram e eu vos convido à acompanhar suas peripécias.

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