quarta-feira, 11 de maio de 2016

XXXIII.

Centésimo trigésimo quarto dia do ano.
Ou a crônica da fome.

Era um dia como qualquer outro, um solzinho quente lá fora e  um vento frio entrando pela janela. A Àrtemis pulando em cima da mesa e me infernizando, como de costume. Eu estava assando linguiças e fazendo uma espécie de purê de abóbora ou abóbora refogada, enfim que quando estava acendendo o fogo ouvi uma batida na porta. Pensei em todas as pessoas que poderiam vir me visitar: o Marcelino teria esquecido a chave? Ou era o Papinildo? Quando abro a porta percebo que não era nenhum dos dois. Fiquei ali com a porta entreaberta olhando pra figura que estava na minha frente, não fazia sentido algum. Depois de um tempo ali parada tentando encontrar algum sentido, lembrei que devia deixá-lo entrar. Era Maurício, depois de quase um ano sem notícias. O mais engraçado é que havia pensado nele de manhã, logo quando acordei. Mas o que ele estaria fazendo na minha casa, àquela hora e sem avisar? 
Me mantive afastada, fazendo perguntas pra tentar entender o que estava acontecendo. - Só estava por perto e resolvi ver se você estava em casa. Não tinha mais seu número e resolvi arriscar, disse ele. Engraçado que a pessoa desaparece por um ano e do nada simplesmente está passando e decide chegar. Não sei o que me surpreendeu mais, ele chegar assim ou o fato deu estar recebendo uma visita. Eu não estava preparada praquilo e eu geralmente me preparo para receber alguém. Sempre há tempo de fazer um bolo, uma pizza ou qualquer coisinha, no entanto, dessa vez só estava eu, ali, sozinha e crua. Arrisca e confusa. Minutos depois tratei de dispensar a visita e só consegui após prometer que sairia com ele. Sete e meia, eu disse. Sete e meia. Eu realmente não queria que chegasse a hora marcada, mas chegou e tão logo chegou a hora, sua sombra estava em frente à casa. Pronta? Sempre. Ou quase sempre. Bem, a gente tenta.
Fomos andando até a casa onde ele estava morando, segundo ele, havia se mudado naquele dia e por isso não encontraria muitas coisas na casa. No entanto, eu não imaginava que seriam tão poucas as coisas que eu encontraria lá. Uma geladeira velha que se ligava e desligava sozinha, dois cobertores dobrados no chão fingindo ser uma cama e uma pequena cômoda num canto na parede. 
A caminhada foi longa e senti sede. Mas não havia copos. Ele me disse que ia pegar e desapareceu durante vinte minutos e retornou com dois copos descartáveis na mão. Conversamos sobre o local, o valor do aluguel, a localização, a busca por emprego e por algum motivo chegamos ao tema comida. Confessou então que estava a seis dias na cidade e que havia se alimentado apenas quatro vezes. Engoli seco e continuei ouvindo o que ele dizia. Prosseguiu dizendo que sentia vontade de comer macarrão com molho de frango e tomar suco. Contou que gosta de molho feito com carne e caldo de galinha apenas. Que macarrão e feijão são tudo o que ele precisa pra viver. A medida em que ele foi falando meu coração apertou e eu lembrei de quantas vezes durante a faculdade eu fiquei sem dinheiro pra comprar comida e que consegui superar isso graças à ajuda de amigos. E enquanto ele falava sobre ter que ir até o centro andando, eu só conseguia pensar que eu tinha que fazer alguma coisa pra ajudá-lo. Eu também estou desempregada, no entanto, se tratando de comida a gente dá um jeito. Disse a ele que poderíamos voltar para a minha casa e que eu cozinharia para ele, afinal eu adoro cozinhar. E ele se sentiu envergonhado e lembrei que havia sentido a mesma vergonha quando estava naquela situação. Mas a vergonha não nos ajuda em nada nesses momentos. Caminhamos um longo percurso até em casa e ele dizia estar se sentindo mal, acredito que se sentia fraco por estar tanto tempo sem se alimentar direito. Preparei o único resto de suco que eu tinha enquanto descongelava o frango e vi ele tomando o conteúdo do copo como se fosse uma espécie de néctar dos deuses. Recostou-se no sofá e por um instante acreditei que ele havia sido vencido pelo cansaço, mas ele logo retornou. 
Cozinhei macarrão suficiente para quatro pessoas comerem e fiz o melhor molho de frango que pude, colocando todo o meu amor e o desejo de que as coisas melhorem pra cozinhar na panela. O cheiro estava maravilhoso e o gosto me surpreendeu. Os molhos nunca foram o meu forte, mas aquele estava muito agradável. Arrumei a mesa e chamei-o para comer e vi a vergonha aparecendo novamente e logo desapareceu. Na falta de suco convencional, improvisei um copo com água, vinho e açúcar e ele aprovou. Comeu uma, duas, três vezes, até que se sentiu cansado. Disse que ele poderia dormir no sofá se quisesse, pra não ter que voltar pra casa andando, mas ele preferiu voltar. Ele realmente não parecia bem e então, pensando que na manhã seguinte ele não teria nada pra comer, coloquei em uma sacola um bolo e um  pacote de bolacha. Não é uma super comida, mas mata a fome. Ele brincou que assim ele não precisaria assaltar uma velhinha. Dei-lhe também algumas moedas, o suficiente pra pagar a lotação ou comer no bandejão. Ele pegou a sacola e saiu dizendo obrigado e sem saber direito como agir e em instantes vi sua figura se dissolvendo na escuridão. 
Depois que ele se foi, fiquei pensando que poderia ter lhe dado um shampoo, mas bem isso não importa agora. A questão que me chama a atenção é que a fome ainda nos assola, a humanidade evolui em diversos aspectos e somos pegos sorrateiramente por uma questão biológica. A crônica da fome é silenciosa e desesperadora, carregada de vazios e vergonhas, carregada de morte mas também carregada de solidariedade. Eu sou e serei eternamente grata aos que me deram de comer quando eu tive fome e me sinto grata porque em meio à tantas dificuldades, eu posso compartilhar aquilo que tenho.

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